Maria Paula Meneses (8 de Abril de 1963 – 8 de Fevereiro de 2026) Homenagem à grande antropóloga africana – por Angeles Castaño

Maria Paula Meneses (8 de Abril de 1963 – 8 de Fevereiro de 2026)

Homenagem à grande antropóloga africana

por Angeles Castaño

 

Quero escrever com luz no meu olhar sobre a pessoa que foi Maria Paula Meneses e a obra que ela nos deixou. Resisti por mais de um ano a escrever uma única palavra que pudesse ser percebida como uma despedida prematura. Porque a amizade que partilhei com a Paula me acompanhará pelo resto da minha vida.

A Paula era uma estrela com luz própria. Bastava aproximar-se dela para perceber o seu brilho e o seu calor humano. E uma breve conversa com ela para se render ao fascínio do conhecimento enraizado numa longa e profunda experiência. A primeira vez que a conheci, tinha então começado um importante projecto científico como nunca jamais poderá voltar a ser realizado no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra – o projecto ALICE – Espelhos estranhos, lições imprevistas: conduzindo a Europa a uma nova forma de partilhar experiências do mundo, dirigido pelo professor Boaventura de Sousa Santos. Permitam-me essa licença retórica que nós, andaluzes, temos, a dupla negação, para encerrar definitiva e categoricamente algo: não é uma redundância, nem uma hipérbole, é uma certeza absoluta, que sentencia uma temporalidade que não existirá novamente aos olhos dos mortais actuais. Um projecto único e uma equipa soberba. Foi num almoço de despedida de um encontro de trabalho científico de outro projecto do CES em que eu participava. Como muitos outros momentos na sua companhia ficaram gravados na minha memória, naquela prateleira dos relicários vitais, do assombroso porque irrepetível. Esse lugar, que imagino que todas as pessoas têm, onde se captura o inefável para fixar na memória o próprio peso específico essencial.

Lembro-me da sua conversação fluida em várias línguas ou, melhor dizendo, numa língua feita de muitas línguas para explicar coisas que pudéssemos entender nós, os comensais de três países diferentes que estávamos sentados perto dela, e que estávamos numa conversa descontraída, mas de intensidade e interesse profundos. Ela tinha aquela capacidade que só em algumas ocasiões encontrei em mulheres africanas, cultas e viajadas: a capacidade criativa da comunicação intercultural com uma linguagem transfronteiriça, transcultural, capaz de passar de um registo para outro com uma facilidade surpreendente. Essa linguagem coerente entre a experiência e o desejo de comunicar com os outros, ressumando imaginação criativa e habilidade oral. Uma forma que só pode ser composta pela própria e intensa experiência incorporada, tornando a oralidade uma manta de retalhos capaz de sustentar o momento partilhado sem deixar ninguém de fora. Isso só uma africana pode fazer, ou pelo menos, só o encontrei em mulheres excepcionais de contextos que existem lá. Em resposta às nossas perguntas, cada vez mais surpreendidos, a Paula falava da sua vida e da sua experiência etnográfica em Moçambique, da sua vida de estudante na Rússia e nos Estados Unidos, e das suas viagens de investigação a Goa, com uma naturalidade como se fosse a coisa mais comum entre os mortais. Percebi que, para uma moçambicana culta e academicamente comprometida, partir da comunalidade africana para percorrer o planeta e encontrar um lugar onde colocar e usar a voz é quase uma dívida obrigatória para com as suas raízes. Numa mesa, rodeada de espanhóis, portugueses, ingleses, alemães e uruguaios, esta africana era, sem dúvida, um caso único. Ou, pelo menos, para mim, era um caso único, uma pessoa única, tão difícil de encontrar na arena académica como encontrar hoje um mexilhão no Mediterrâneo.

Com o passar do tempo, formou-se uma amizade ancorada num profundo respeito e afecto mútuo, que proporcionou muitos encontros e longas conversas que me permitiram conhecer e descobrir aspectos da sua vida de luta desde a juventude pelos direitos próprios e colectivos na sua terra natal. Uma vida tão apaixonada em suas convicções só poderia dar origem, numa pessoa tão inteligente como ela, ao desenvolvimento frutífero de uma obra avançada com novos horizontes para a antropologia, bem enraizada nas pessoas e na cultura da sua terra natal e nos seus contextos habitados e vividos. Uma obra de toda uma vida profissional, desde a que iluminou a teoria das Epistemologias do Sul, ao mesmo tempo que dela recebeu brilho. Um paradigma científico que coloca, para a antropologia, as bases e os instrumentos para esculpir o camafeu da dignidade das lutas de libertação colonial e dos oprimidos.

Num mundo que reedita, neste século XXI, novos imperialismos e colonialismos desumanizantes e exterminadores, graças às novas tecnologias de comunicação e armamento, nas Epistemologias do Sul, a antropologia, que Maria Paula Meneses construiu ao lado de Boaventura de Sousa Santos, é a pedra angular para que nesse paradigma se compreenda a diversidade incomensurável da plasticidade humana e o seu valor nas lutas pela existência e pela dignidade humana; por sua vez, as Epistemologias do Sul são para a antropologia do século XXI o sopro e a lufada de ar fresco para que esta ciência possa recuperar a sua saúde neste milénio doente e reencontrar o valor fundamental da diversidade que almejou desde a sua origem nas manobras coloniais do saber-poder nos interstícios disciplinares do seu próprio sistema de poder ocidental. A antropologia de Maria Paula Meneses pressupunha o saber africano de vida numa disciplina envelhecida prematuramente pela prostituição do seu valor essencial, o reconhecimento da diversidade e especificidade cultural dos grupos e sociedades humanas, em prol de novas tendências para a globalização suicida de uma ciência prostituída pelo capital que a financia. Uma antropologia estéril, resultado da ciência colonial ocidental que se perpetua nas formas de ver deste século. Na jangada das Epistemologias do Sul podem flutuar todas as lutas de todas as exclusões e desapropriações coloniais que tentam eliminar do arquivo da história para que ninguém as possa encontrar. Por isso, ela colocou em Moçambique a pedra nobre da lapidação. Porque Paula foi e é, acima de tudo, uma antropóloga situada e enraizada. A sua obra mostra com brilho próprio que estamos perante a antropóloga africana mais brilhante deste momento histórico, quando na antropologia social e cultural é realmente raro que se contribua com algo verdadeiramente novo para o conhecimento sobre a diversidade dos seres humanos e sobre o que eles partilham. E esse tem sido o grande pilar desta antropóloga nas Epistemologias do Sul e a sua grande contribuição para a antropologia contemporânea.

Nunca tive melhor sorte como quando nos cruzámos. Aprendi o que nunca teria aprendido em nenhuma universidade, em nenhuma estadia em nenhum templo académico onde os minideuses não saem do frontispício em que estão esculpidos. Talvez porque as pessoas fronteiriças, como ela, guardam conhecimentos de um limiar ao qual muito poucos chegam. Muito menos na academia e na ciência, onde essa natureza não é compreendida nem foram desenvolvidos instrumentos para lidar com ela. A mim sempre me atraíram as fronteiras. Não para atender aos limites, mas para superá-los e transpô-los, transgredindo suas fantasmagorias.

Desse empenho talvez venha essa habilidade de fazer a ponte entre as nove línguas que ela falava, cinco delas europeias. Várias com uma fluência quase nativa. Criando um espaço inclusivo e comunicativo para quem quisesse entender. As suas etnografias em Moçambique e em Goa, e os seus estudos profundos e de longa data sobre as relações pós-coloniais de Portugal com o seu espaço colonial lusófono, contribuíram notavelmente para ampliar o campo de estudos sobre o (anti-)colonialismo e as contribuições dos conhecimentos na luta. Especialmente das mulheres – sempre esquecidas nos contextos coloniais de desumanização.

Há na sua escrita algo rebelde, algo crítico, algo nobre e algo poético. Como um espírito que recompõe sabiamente a sua essência a partir de complexas batalhas travadas, políticas, pessoais, profissionais, emocionais e provavelmente também espirituais, a Paula tece na sua voz e na sua escrita a jóia de todas as cristalizações de uma vida emocionante e incompreendida.

Está na escrita da Paula a poética dos sentidos, algo tão genuinamente africano, que leva dos sabores aos saberes o lugar epistémico das lutadoras africanas dos seus encontros etnográficos. No seu Facebook há um multicolorido africano de conhecimentos e engenhos incríveis, políticos, económicos, produtivos, artísticos, musicais, têxteis, aromáticos, cromáticos… os seus 2129 amigos no seu perfil sabem disso muito bem. Mas o surpreendente é que isso mesmo estava nas suas conferências, nos seus textos, nas suas aulas, no seu escritório, na sua casa, na sua família e no seu coração. Era capaz de levar a sua luta pelo invisibilizado a todos os espaços por onde passava. Com uma sagacidade, inteligência, saber fazer e saber usar a palavra que eu nunca tinha tido oportunidade de ver antes.

E a Paula levava e trazia, como conchas deste mar dos sentidos, os dons da amizade que só uma africana sabe circular. Os tecidos africanos multicoloridos dos souks por onde ela andava com o seu coração acabavam nas mãos das suas queridas amigas. Mas o melhor de tudo sempre foi a sua proximidade, as suas histórias e a sua hospitalidade. E a «curiosidade» e o «inquérito» nas brilhantes e longas conversas sobre os problemas contemporâneos desta loucura que parece dominar o nosso presente. Essas conversas de que tanto sinto e sentirei a falta. Onde a conexão, muitas vezes, era repleta de entendimentos mútuos, onde não eram necessárias mais palavras. É uma pessoa que acredito poder dizer que a vejo, que a vi. Muito para além da aparência material que nos torna mortais.

A Paula dedicou um dos maiores esforços da sua vida à formação de jovens investigadores capazes de pensar por si próprios e melhor. Pensando sempre que eles são o futuro de uma velha academia cujos pilares e estruturas estão desfasados e gastos, e cheiram a podridão. Mas transmitindo sempre que o futuro existe, e são eles, e são eles a esperança de que algo melhor possa surgir.

Nos próximos meses será publicada uma grande obra em dois volumes que reúne todo o seu trabalho, Moçambique e o Sul Global. Uma perspectiva a partir das Epistemologias do Sul, pela editora Almedina. No primeiro volume, Teoria e História, a Paula estabelece, numa perspectiva interdisciplinar, uma metodologia baseada nas relações e no reconhecimento dos saberes dos profissionais locais que representam o futuro da investigação histórico-antropológica, e posso afirmar que não apenas para o seu Moçambique, que é o seu mundo investigado, mas para os mundos existentes de diversidade onto-epistemológica que é a Humanidade. No segundo volume, As ecologias de saberes, ela articula três eixos fundamentais que, em si mesmos, constituem os pilares da existência e da sobrevivência de qualquer sociedade, embora mostrados em seu Moçambique: a ecologia dos saberes jurídicos, dos saberes médicos e dos saberes ambientais. O estudo das relações complexas entre sistemas de conhecimento – científicos e populares-comunitários-indígenas – onde o conhecimento é uma entidade viva onde confluem epistemes em práticas quotidianas onde o humano e o natural estão intimamente ligados. Uma contribuição monumental que articula história e antropologia de uma forma inovadora e única, que representa, neste momento da história em que o humano se esfuma no império dos objectos e das máquinas, uma das maiores contribuições para a revitalização da ciência antropológica.

Maria Paula Meneses

E embora ressoe no meu coração o verso «não há extensão maior do que a minha ferida» de Miguel Hernández, o poeta da dor causada pela violência assassina e pelo sofrimento dos inocentes, pretendo aqui fazer brilhar um génio singular, cujo rasto deixará um impacto que as brutais cornadas do racismo académico não poderão ocultar. Vivemos em um tipo de sociedade que tende a reproduzir violências de variedade difusa nas instituições, executadas colectivamente, que matam indirectamente e facilitam a invisibilidade de quem as comete. As novas tecnologias não só facilitam isso, como permitem que as e os perpetradores se escondam no anonimato tecnológico e das próprias instituições, cujos recursos legais e éticos aproveitam em benefício próprio. A violência académica é a mais refinada, mas não deixa de ser tão irracional e desumana como qualquer outra.

Não sei se este é o momento, o local e o lugar. Mas não posso deixar passar em claro o dano que destroçou o seu coração e destruiu o seu espírito lutador com a barbárie da violência que muitas vezes reina na academia, dominada hoje novamente pela selvageria extremista destes tempos: o racismo patriarcal exercido por académicas pseudo-feministas, que não sabem que não são feministas. Capazes, como os colonos do chicote, de afastar as mulheres e os homens negros que atrapalham o seu tonto caminho ascendente, quando, como ela, enfrentam e desafiam os seus excessos com a mais absoluta honestidade e franqueza. A brutalidade do patriarcado mais destrutivo e mais cruel, que só as mulheres que não sabem que não são feministas são capazes de exercer e reproduzir na violência mais violenta do poder académico, injusto e canibal.

E não deixo passar em claro porque não posso, porque não há justiça. Pelo silêncio indigno e desumano que mantêm no centro onde ela trabalhava. Onde, apesar das linhas de investigação que mantêm abertas, hipocritamente não aplicam a teoria à prática, na defesa dos direitos humanos e da justiça social com as pessoas mais vulneráveis do próprio local onde trabalham. Como de facto tem sido a injustiça social cometida colectivamente contra Paula Meneses.

E só posso escrever aqui o meu abraço emocionado, amigo, juntamente com o meu grito revoltado por aquilo que nunca terá reparação suficiente. Não nesta academia, que continua dominada por mulheres e homens patriarcais, racistas, coloniais.

Posso imaginar o seu pavor, aquele que só as pessoas que puderam sentir o racismo na própria pele podem sentir. Tão vulnerável e indefesa; talvez tenha sentido e revivido o horror da sua juventude? Será que conseguiu voltar a sentir-se viva, mas paralisada sob o peso de um corpo de soldado morto, como sentiu naquele fosso onde quase ninguém ficou vivo ao seu lado? Posso imaginar o seu assombro. Pois quando se pensa estar entre companheiros de luta (académica?) e se é surpreendido pelo racismo daqueles que de repente se transformam em supostos colegas, isso pode ser, como de facto tem sido, mortal.

E ninguém pediu desculpa pela profunda dor causada à sua pessoa. Nem pelo sofrimento causado à sua família, aos seus amigos. Ninguém no local de trabalho que era o seu teve a honestidade de pedir desculpa por ter participado em tão indigna perseguição. Ninguém se demitiu pela péssima gestão do mal. Nenhuma juíza ou juiz pediu desculpa por ter cedido à contaminação mediática. Nenhum jornalista escreveu um artigo de arrependimento, retractando-se da má investigação jornalística. Nenhuma académica feminista reclamou e denunciou a infâmia da mentira e da falsidade assassina contra uma colega africana. Continuam todos presos do medo. O medo da ausência prática de direitos, o medo da matilha cibernética. O medo do medo. E todos fazem parte da mediocridade desta sociedade que nos torna mais vulneráveis, mais expostos, mais fracos, mais presas nas mãos da barbárie.

A Paula deixou-nos no passado dia 8 de Fevereiro. E nós continuaremos aqui, construindo com as pedras que ela esculpiu. Para que as novas gerações recebam algo do brilho que emana da razão emotiva, a mais inteligente.

 

 

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